Efeito representação e o comportamento habitual
LEITURA COMPLEMENTAR para o item 6.1.2 – Influência da situação, em Mediação e Solução de Conflitos – teoria e prática, de Fiorelli, Fiorelli & Malhadas.
Resumo
A representação acompanha o ser humano em todo ambiente social. As pessoas representam na presença de outras pessoas. O mediador deve compreender a extensão em que isso acontece e os efeitos que a representação podem ocasionar ao longo das sessões.
Em todos os ambientes (familiar, religioso, social, escolar, empresarial, de lazer) as pessoas representam na presença de outras, conhecidas ou não.
Vários fatores afetam a maneira como a representação acontece.
A idade, sem dúvida, a influencia; seria ingenuidade esperar de um adolescente ou adulto a mesma espontaneidade de uma criança.
A experiência do agente no ambiente constitui outro fator significativo: a habitualidade torna o palco menos ameaçador.
No local de trabalho percebe-se a representação ajustada aos papéis e responsabilidades. A maneira como gerentes representam é substancialmente daquela utilizada por seus assistentes, assessores e demais colaboradores. O empregado estável, concursado, representa de maneira diferente daquele cuja estabilidade no emprego depende dos humores do superior imediato.
Em uma festa, evidencia-se nos trajes, nas maneiras de se comportar e nas falas. A maneira como se segura um copo de vinho, a manipulação dos talheres, o uso do guardanapo, os sorrisos e os toques nos penteados acompanham a encenação social.
Observem-se pessoas caminhando (“footing”) em um parque – o teatro social impõe-se nas vestimentas, nos gestos, na maneira de olhar e até de respirar.
A representação acontece no lar, envolvendo cônjuges e filhos, desde no tão conhecido “fazer de conta que não está doente” até na ocultação de problemas do trabalho, da escola, das relações intepessoais. A moça briga com o namorado e “faz de conta” que “está tudo bem”; um dos cônjuges envolve-se em um complicado conflito na empresa, perde (ou aumenta) o apetite, mal consegue dormir e ... “está tudo bem!”.
Democrático, esse fenômeno independe de instrução ou poder aquisitivo; religiosos, políticos, advogados, engenheiros, pedreiros, cozinheiros, atendentes de público irmanam-se na informalidade inexorável do teatro social. Modifica-se, apenas, a forma de representar.
Essa característica do comportamento humano foi comprovada cientificamente na famosa experiência de Hawthorne (Huffman, Vernoy e Vernoy, 2003:651), conduzida pelos pesquisadores de Harvard na Western Electric Company em 1924, fartamente descrita em livros de administração e de psicologia.
Nessa experiência, dois grupos executaram a mesma tarefa, um deles sabendo-se observado e o outro não; aquele ciente da presença dos observadores desempenhou com mais eficiência, embora as condições de qualificação e realização das atividades fossem idênticas. O efeito Hawthorne comprova-se cotidianamente no esporte: os atletas desempenham melhor quando incentivados pelos torcedores (ou, pressionados pelo treinador, ou ambos...); por isso tem muito valor o velho ditado do futebol “treino é treino, jogo é jogo”.
Os mediandos representarão, tanto mais quanto maiores forem os benefícios esperáveis, quanto mais a representação contribuir para obtê-los e melhor se ajustar às suas características predominantes de personalidade.
Uma pessoa histriônica promoverá seu espalhafato, enquanto o esquizóide contará suas nozes em silêncio; o narcisista ostentará seu melhor traje, o passivo-agressivo se mostrará notavelmente cordato e sedutor enquanto afia o punhal da traição e assim por diante.
Referência citada:
HUFFMAN, K; VERNOY, M; VERNOY, J. Psicologia. São Paulo: Atlas, 2003.